Foucault

Eu o vi nascer.
O primeiro de cinco.
Preto, magro.
O mais arrisco de todos.
Nenhum dos outro me impressionou tanto.

Comia mais,
dormia menos.
Se afastava

Decidi que ele era meu,
todos os outros ganharam nova morada,
ele ficou.
Ganhou nome bonito,
francês,
intelectual.
amor.

permaneceu indiferente.
não gostava de carinho,
reservava aos estranhos um olhar de luta.

Mas eu o vi nascer, por isso, não hesitei quando estava indo, precocemente. Sentei ao seu lado e assisti. Nascer e morrer é bem parecido enquanto processo. São duas saídas. Reconheci a mesma expressão de desconforto. Deixar o útero, deixar a vida.

 

o começo do fim

Ele disse que me amava três mil quilômetros depois. Quando eu estava em outro Estado, em outra região, quando rios e estradas, prédios e matagais nos separavam, ele disse que me amava por uma mensagem, com essa única frase que supostamente deveria significar tudo, resolver tudo. Eu te amo. Não resolve. Eu te amo, assim, sem ponto. Como se não houvesse firmeza, o que eu deveria fazer com um eu te amo solto e digital?

Além do mais, era meu aniversário. Era meu aniversário e eu estava numa cidade estranha, sozinha, comendo uma fatia de torta alemã deliciosa num restaurante pequeninho de clima maravilhoso em Copacabana. Eu estava me sentido sortuda por encontrar aquele lugar, por ele ter minha torta predileta, pela chuva que resolveu dar uma trégua e deixar que um pouco de calor chegasse à minha pele, e eu tinha até, meia hora antes, encontrado um livro bacana num sebo pequeninho, e ainda estava agradecida pelo fato de que, apesar do tempo ruim, o meu voô havia sido tranquilo, nenhum dramin. Tudo ia bem, porque mesmo com o atraso do voô da minha amiga que ia de João Pessoa pra lá, e com as ocupações do nosso anfitrião naquela manhã, eu estava feliz, orgulhosa de mim mesma por me virar sozinha e por ter comido um copão de pão de queijo, eu estava me sentindo uma feliz exploradora urbana naquele momento, então tudo ia bem até o “eu te amo” que tirou o gosto do chocolate meio amargo da torta. Era meu aniversário, será que ele considerava isso um presente?

Pra ser honesta, a reação negativa não foi instantânea, afinal de contas, independente das circunstâncias, é sempre bom saber que alguém te ama. Mas como você se sente quando sabe que esse alguém é maravilhoso, ou perto disso, e não merece sua incapacidade de corresponder? É ai que o gosto amarga. Não é um presente quando a não retribuição é uma mensagem clara. Eu poderia dizer o mesmo, era fácil, eu poderia responder “eu também te amo“, dava pra fazer isso com mais de três mil quilômetros de distância entre nós, eram só alguns caracteres enviados digitalmente, o que eu não conseguiria fazer era fingir isso quando estivéssemos novamente cara-a-cara. Eu nunca fui boa em mentir, ele mesmo dizia isso – todo mundo diz – minha cara entrega tudo que eu sinto, basta saber interpretar. Além disso, tinha alguma coisa no modo como ele me olhava – talvez até hoje, quando nos encontramos por caso na rua -que me fazia querer ser o melhor de mim e mentir não chega nem perto disso.

Então, primeiro eu o culpei. Era culpa dele por me dizer aquilo. Quatro meses juntos, quatro, não era meio cedo? As pessoas costumavam ser assim? Eu não sabia dizer, eu nunca tinha estado em um relacionamento funcional. Eu estava bem sem aquilo. Eu não podia dizer que não desconfiava do modo como ele se sentia, dava pra levantar essas suspeitas pela forma como ele me olhava, pela sua insistência em ficar ao meu lado mesmo nos meus piores momentos. Às vezes, quando eu insistia que não porque precisava estudar ele apenas ficava quieto do meu lado, me assistindo. E mesmo sem gostra dos meus amigos ele ficava lá, calado, escutando conversas que não o interessavam, por mim. Aquilo me assustava, bastante. Depois culpei meu timming, afinal de contas é a história da minha vida, quando alguém gosta de mim eu estou ocupada gostando de outra pessoa, e só quando pessoa parte pra outra é que eu resolvo ficar na dela. Mas a culpa era minha? Talvez, eu sou medrosa, sempre fui, eu percebi naquele dia que com vinte e poucos anos eu nunca tinha dito “eu te amo”, eu nunca tinha me colocado lá fora, à disposição. Não acho que todo mundo encontra amor em outra pessoa, romanticamente, mas eu nunca se quer estive enganada sobre amar alguém. E, normalmente, as pessoas são medrosas por experiências antigas mal cicatrizadas, eu não as tenho, eu sempre me guardei, eu sempre tive medo que alguém invadisse esse lugar imaginário que faz com que eu seja quem sou e começasse a me mudar, eu tive medo de uma dia me olhar no espelho e não me reconhecer. Agora, quase um ano depois, eu me pergunto se eu gostaria mais dessa suposta outra pessoa do que de mim mesma.

Talvez ele nem pretendesse nada daquilo, me fazer pensar tanto. Talvez ele tivesse sentido e dito, como as pessoas honestas costumam fazer. Mas eu não era assim, eu era uma pessoa das omissões, da não exposição, talvez ainda seja, não tenho certeza, não sei muito bem quem eu sou hoje. Eu nunca respondi, eu desliguei minha mente e devo ter tido a melhor semana em meses, eu dancei como uma louca, tive conversas (des)pretensiosas sobre autores contemporâneos famosos, fiz novos amigos, conheci um cara maravilhoso que desenha, toca violão, fala francês e parece ter saído da minha imaginação de tão de acordo comigo, ou talvez eu tenha projetado e aceitado tudo que ele é como bom, porque ele não era o cara da mensagem e eu precisava achar qualquer argumento pra não me avaliar naquele momento, pra não pensar em como eu estava sendo medrosa.

Mas a verdade é que eu estava aterrorizada, eu tinha medo de magoar alguém, sempre tive, porque do mesmo jeito que eu sempre fui cuidadosa comigo eu tento ser com os outros. Eu tinha medo de assumir aquela responsabilidade, a responsabilidade de ser amado por alguém e partir o coração dele, porque eu não tinha a menor ideia de como agir. Eu me permiti, pela primeira vez, no último dia de viagem, imaginar como ele estava se sentido sem resposta. Talvez ele tivesse aterrorizado também, se bem que naquela altura ele já deveria simplesmente estar irritado com o meu sumiço. Eu não respondi nenhuma das mensagens seguintes “se divertindo?”, “saudades” e “quão boa é a maconha daí?. Era uma coisa nossa, um mês antes havia o presenteado com maconha potiguar, antes disso paraibana, mas eu tinha o pressentimento de que nem todos os baseados cariocas resolveriam àquilo.

Voltei pra casa e nunca conversamos sobre o assunto, falamos sobre os pontos turísticos, as pessoas, o serviço de táxi, mas não da minha falta de respostas, não da saudade, eu não podia admiti-la sem abrir uma porta, muito menos falamos do amor. Voltei e ele nunca mais disse que me amava, embora o não dito estivesse lá, um vazio que ocupava espaço e que foi ocupando até criar um abismo entre nós.

terapia

Talvez a coisa mais estranha sobre fazer terapia é que, antes de começar, a principal ressalva esta na necessidade de se dispor a colocar todos os seus pensamentos, sentimentos e medos pra uma pessoa que você nunca viu nada vida, isso é ainda mais complicado quando você (como eu) é o tipo de pessoa predisposta à desconfiança.

Então você começa timidamente, medindo as palavras, considerando o que essa pessoa estranha vai achar de você, mas ela não acha, ela não tem opiniões formadas sobre a sua vida, ela apenas vai te mostrando onde cavar, quais locais precisam de reparo. E então, meio que do nada, o jogo vira. De repente, você passa a semana desejando pela oportunidade de falar com essa pessoa estranha que é, paradoxalmente, um lugar de segurança.

E você pode falar sobre tudo. O julgamento ficou do lado de fora da porta, longe do conforto da poltrona, fora dos olhos genuinamente interessados de que tem escuta. Talvez, no começo, você estranhe as respostas. Talvez você espere mais, um comprimido de efeito instantâneo, o bater dos sapatos na estrada de tijolos amarelos e as palavras mágicas recitadas, mas não é assim que funciona. Só porque você precisa de terapia não significa dizer que você e totó deixaram o Kansas e se perderam numa terra distante. Com o tempo, você aprende que apenas ter alguém pra te ouvir é o suficiente, talvez você perceba que esteve no quintal de casa o tempo inteiro, mas que não era capaz de reconhecê-lo até lidar com toda a bagunça.

Eu tinha um medo danado de terapia, medo da necessidade de outra pessoa pra me guiar, mas aprendi que às vezes você só precisa que alguém te faça as perguntas certas e a partir delas você pode encontrar suas respostas, sozinho.  Li uma vez, bem antes de começar as sessões, que se você vai ao dentista, nada mais justo que vá uma terapeuta. Na época, essa frase não me acertou como acerta agora, foi só depois de perceber o potencial labiríntico da mente é que eu a compreendi. Certamente tenho apreço pelos meus dentes, mas não tanto como gosto do meu juízo, sem contar que na terapia não tem motorzinho, nem xilocaína com sabor artificial de laranja.

primeiro de abril

Era dia da mentira. Era dia da mentira e o diretor chegou na minha sala enquanto eu resolvia uma divisão por três algoritmos. Com a cabeça baixa, quase colada no papel, só o notei quando meu nome foi chamado. Juntei minhas coisas. Lembro da alça da mochila pesando no meu ombro, de achar que minhas pernas pareciam enferrujadas. Sai da sala e encontrei meu irmão no corredor, sua pele oliva parecia acinzentada, os olhos perdidos, assim como os meus, imagino agora. Peguei na sua mão e caminhamos pelo familiar corredor, escoltados pela sombra do homem de quase dois metros.  É dia da mentira, repeti mentalmente.
Era um daqueles dias em que nem fazia sol nem chovia, nem tão pouco havia vento. O corredor era aberto, eu podia ver pelas janelas azuis as cabeças concentradas em seus deveres, alguns professores, lembro de ter visto meu professor de História, lembro que eu preferiria aula de história do que continuar aquele nada casual passeio. No portão, depois minutos que pareceram anos, estava mamãe. Seus olhos grandes, seu cabelo cheiroso, respirei como se tivesse apenas naquela momento aprendido a fazê-lo. Havia papai. “O que houve?”  Perguntei. Mordi o lábio. Não queria mesmo saber. Mas era dia da mentira.
Minha mãe agradeceu ao diretor, que nos olhou do topo da sua solidão de quase dois metros. Ele sorriu, torto e amarelo. Voltamos pra casa, “eu tinha ciências no segundo período”, repeti irritada com o suspense. Meu irmão brincava com um carro. Havia perdido o aspecto de medo que eu ainda trazia bordado, mas tudo bem, se houvesse uma escala de criança, eu poderia dizer que ele era mais criança do que eu. Quando chegamos papai estava sentando, as mãos na cabeça, triste. Eu já havia visto papai alegre, bravo, ciumento, levemente embriagado, cansado, doente, mas não triste. Aquilo era novo.
Ganhamos um copo de leite cada, meu irmão e eu, sentamos à mesa enquanto ouvíamos sobre o que tinha acontecido. Vovó havia morrido, a mãe de papai. Era dia da mentira. Então, era mentira, certo? Não era. Não tinha certeza de como aquilo me fazia sentir, achei que chorar fosse apropriado, mas não chorei. Mamãe me disse mais tarde pra não chorar no velório, porque isso deixaria todo mundo mais triste. Acho que é verdade, nada comove mais que a comoção de uma criança. Meu irmão perguntou se ela ia gostar do céu, hoje acho que é a pergunta mais inteligente que se pode fazer. Mamãe disse que sim, mas como vamos saber? Pedi pra sair da mesa e fui pro meu quarto, fechei os olhos e tentei lembrar de todos os detalhes de vovó, hoje eu ainda posso fazer isso, mesmo quinze anos depois.

há uma violência nisso,
no modo como você existe à margem de mim.
(ou seria o contrário?)
no modo como eu nunca posso te alcançar
a cada novo passo, mais distância.

 

eu e ela

Quando eu acordo, pela manhã, ela quase nunca está. Respiro aliviada e levanto da cama apressada. Penso que se eu for rápida talvez, mas só talvez, eu consiga despistá-la hoje. Enquanto me arrumo, tudo é uma ameaça, o shampoo que tem um cheiro forte, o desodorante que faz com que eu pense que minha garganta está se fechado, alguns saltinhos do meu coração, minha cabeça não para de procurar essas ameaças, tento espantá-las. Escolho as roupas considerando as coisas ruins que podem acontecer, penso coisas como “você não vai querer morrer usando essa calcinha” e ainda “uma blusa de botão ajuda caso você precise ser examinada”.
Tomo um chá de camomila e coloco na bolsa uma barra de cereal, “vai que a pressão baixa um pouco”. Chego no trabalho depois de evitar as ruas nas quais já passei mal, e as ruas nas quais posso ver pessoas que podem fazer com que eu me sinta mal. Ligo meu computador, leio meus e-mails, preparo as pautas de imprensa do dia, checo as ações mais próximas e começo a trabalhar nelas: divulgação, cobertura, pessoal necessário. Um delas será na praia, de dia, imagino se estará muito quente, talvez eu não deva ir, “Não precisam de mim lá, precisam?” Posso passar mal com tanto calor.
Pessoas chegam pra uma reunião, eu gelo. Começo falando, eu marquei a danada da reunião afinal de contas. Quais serviços serão ofertados? Como avaliaremos a ação? Está tudo certo com a montadora? E com os fornecedores? Quais as demandas dos equipamentos? Ouço, ouço e ouço. Ponho a mão no peito várias vezes. Ouço mais. Até que as vozes vão se afastando e se afastando, e eu não consigo mais ouvir direito. Eu não consigo participar da conversa, eu não consigo respirar. Peço desculpas e vou ao banheiro, lavo meu rosto, repito baixinho algumas coisas que aprendi na terapia, respiro fundo.
Crise evitada, eu posso voltar a trabalhar, mas ela está comigo agora, eu posso sentir na tensão que se aloja no meu ombro esquerdo, eu sei pelo pulsar forte das veias das minhas pernas, pela dor que corre em minhas costas. Ainda nem são 12h, ainda nem são 12h e eu já estou apavorada, eu já quero voltar pra casa, pra minha cama, pro lugar onde ela não estava nessa manhã. E quero, mais ainda, voltar no tempo. Não posso.
Saio do trabalho às 14h, tenho aula de dramaturgia às 16h, pego um transito leve, mas estou bem, “está tudo bem”, repito pra mim mesma. O ar-condicionado, o trânsito, a música (algumas músicas me acalmam, outras nem tanto, fujo dessas.
Chego na aula e sento lá atrás, só são dez alunos, mal posso me esconder, mas desejo. Desejo a habilidade de me fundir com a parede e ficar ali, escutando quietinha. Sei o que vai acontecer, tento me preparar. Anoto algumas das coisas que pensei sobre o assunto, ensaio mentalmente, enquanto tento ouvir a aula e espantar o medo. Mas quando, finalmente, a professora pergunta minha opinião sobre o texto eu quase morro. Eu li o texto, é claro que eu posso falar sobre ele, seis meses atrás eu poderia palestrar sobre qualquer texto, agora não posso. Todo meu corpo gela, minha cabeça fica confusa, eu tento me focar, não consigo. Começo a falar algumas coisas embaralhadas, sinto meu coração bater forte, devagar, uma pancada maior… e então ele acelera. Termino de forma estranha e ainda mais embaralhada do que comecei, espero que outra pessoa comece a falar e vou ao banheiro.
Sinto vontade de vomitar, mas não vômito. Lavo meu rosto, repito baixinho algumas coisas que aprendi na terapia, respiro fundo e penso em finalmente tomar um daqueles comprimidos que a psiquiatra passou, mas não tomo. Tenho medo deles, li a bula, todas aquelas interações, efeitos e reações. Penso na distância da urgência mais próximo, tento lembrar que calcinha estou usando. Eu não iria querer parar no hospital com uma calcinha velha, lembro que já pensei isso hoje. Me acalmo e volto pra aula, encaro o relógio apressada, gosto da aula, mas quero ir pra casa, eu estou protegida em casa.
Quando finalmente chego em casa, todo meu corpo doí, e eu não consigo relaxar. Como, tomo uma taça de vinho e tento ler um livro, é sobre análise do discurso, não consigo passar de duas páginas sem checar meus batimentos cardíacos, tudo bem, continuo, dois minutos, checo outra vez. Troco o livro pela TV, talvez uma comédia me acalme, escolho uma que já vi mil vezes, não gosto mais de ver coisas novas (também não gosto de fazer coisas novas) gosto de saber o que vai acontecer, estou sempre operando num regime de segurança e previsibilidade.
Minutos antes de dormir, abro o livro que ganhei sobre transtornos da ansiedade, escolho um depoimento aleatório e leio. Abro no de um homem que passou dois anos achando que teria um ataque cardíaco, dois anos entrando e saindo de emergências de hospitais, dois anos de exames e nada, nada. E ainda assim ele sentia tudo. Tudo que eu sinto. Isso me conforta um pouco, me conforta saber que outras pessoas passam/passaram por isso e que elas estão ai contando suas histórias, isso também me ajuda a pensar que está tudo bem com meu corpo, todos os meus exames estão normais. “É tudo coisa da minha cabeça, eu preciso aprender a controlar isso”. Tomo outro chá de camomila enquanto penso sobre como uma segunda-feira pode ser um desafio, vou finalmente dormir.
Quando eu acordo, pela manhã, ela, a ansiedade, quase nunca está, mas eu sei, sei pelo cansaço nos ombros, pelo frio na barriga, sei que ela vai voltar.

ele

O problema é que eu te encontrei depois. Mas se você estivesse aqui primeiro ele não seria nada. Não teria chance. Eu te daria esse espaço mil vezes se ele estivesse vazio. Ninguém faria morada nele melhor que você. Eu quase posso sentir. As parede bem pintadas. Cortinas bonitas. E esse seu cheiro pitanga em todos os lugares. Eu o expulsaria agora se pudesse. Mas esse lugar é dele. Assim como eu.